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07.09.06

P: O Que Mais Assusta os Médicos? R:Ser o Paciente



Capa da Revista Time de 01/mai/06

O Que os Médicos Odeiam Sobre Hospitais (dos EUA).

O que os Internos Sabem Sobre o Nosso Sistema de Saúde Que o Resto de Nós Precisa Saber (EUA)
Por NACY GIBBS, AMANDA BOWER
Postado Domingo, 23/04/06

I

"É fácil imaginar que os médicos não ficam doentes. Certamente o escudo higiênico da roupa branca esterilizada os protegem de jamais terem que vestir a roupa-branca, ondulante, fina e fantasmagórica de pacientes e usarem o bracelete fino, subir docilmente "naquela" cama e ficar à mercê do sistema de saúde dos EUA. E se de alguma maneira entram no hospital como pacientes, os médicos têm todas as vantagens: o conhecimento dos internos, acesso aos melhores especialistas, uma segunda opinião embutida, nenhuma espera, nenhuma batalha burocrática insana e nenhuma perda de identidade ou dignidade quando entrarem na "Sala 402" de “mastectomia bilateral”. Mas normalmente a coisa não funciona desta maneira. Enquanto os doutores estão numa posição melhor do que a maioria de nós para localizar os riscos no hospital e os furos em seus tratamentos, eles necessariamente não conseguem consertá-los sozinhos. Eles não conseguem mesmo evitá-los quando eles mesmos se tornam pacientes. Quando a Dra. Lisa Friedman sentiu o caroço em seu seio no verão de 2001, o que ela fez?... Nada. “Eu apenas aceitei”, disse, “porque eu estava num estado de ser uma médica, não paciente, e eu pensei, ´A maioria dos caroços não são cânceres, só o observarei.´”. Este foi o seu primeiro erro.

Em setembro (outono nos EUA) Friedman tinha esperado tempo demais observando-se. Uma internista em estágio que atendia na maioria dos hospitais do sul de Wisconsin, ela foi ao seu departamento radiológico para marcar uma mamografia. Os administradores negaram: o seu exame de OMS* era pago para valer para cada dois anos e ela tinha feito um 18 meses atrás. “eu disse, ´espere um minuto, eu tenho um caroço. Isto não é exame de rotina´. E eles ainda não me deixaram fazê-lo”.

Este é o enredo de um filme de vilão. Friedman teve que apelar para a comissão de diretores da OMS . “Eu disse, ´eu irei pagar pela minha própria mamografia. Apenas me deixem fazê-la´”. O seu apelo foi aceito e finalmente fez o teste. “Eles nem tiveram que fazer uma biópsia”, disse ela. O radiologista apenas olhou o exame e disse, ´oh, meu Deus!... você tem um câncer no seio´” .

O tratamento educativo de Lisa Friedman, paciente, tinha começado. Como muitos outros pacientes – e talvez mais – ela teve que arrancar com muita dificuldade as informações de seus médicos. “Eles me tratavam como uma especialista, mas não estavam me escutando”. Quando ela descobriu que o câncer tinha se espalhado por várias partes num seio, Friedman disse aos cirurgiões que não havia necessidade de preservar seu seio por razões cosméticas; ela estava mais preocupada em que o câncer fosse totalmente removido. Ela solicitou uma mastectomia – mas eles disseram que uma lumpectomia resolveria. “Eu aceitei”, ela disse. Este foi o seu segundo erro. Seu seio estava peneirado pelo tumores. “Eles acabaram fazendo três lumpectomias. Estavam cortando fora o meu seio até que eu fiquei sem seio algum. Então eu disse: ´poderiam me fazer o obséquio de arrancá-lo todo fora´”?

Os médicos de Friedman não eram incompetentes. Não operaram o seio errado, ou lhe deram os remédios errados ou cometeram qualquer erro médico rude – e esta é toda a questão. Enquanto existem maus médicos praticando uma má medicina e que permanecem desapercebidos, isto não é o que mais assusta os outros médicos. No entanto eles viram o sistema deformar-se ao longo dos anos, por medo de processo judicial, pelos custos dos seguros, pela competição crescente, pela encapelada burocracia e mesmo pelos aperfeiçoamentos na tecnologia que apresenta novos riscos mesmo a medida que eles reduzem os antigos. Então os médicos negam-se a fazer exames se eles não tiverem a absoluta certeza de que eles são necessários. Eles pesam a vantagem dos hospitais de ensino onde você provavelmente encontra o diagnosticador que é um gênio versus hospitais da comunidade onde você tem menos probabilidade de trazer para casa uma imunda infecção hospitalar. Eles evitam marcar cirurgias em julho, quando os novos médicos estão justamente iniciando seus estágios nos hospitais de ensino, mas reconhecem que os médicos mais velhos e experientes podem não estar atualizados sobre os melhores padrões de tratamentos.

A maioria dos médicos admite abertamente que eles fazem de tudo para que o sistema funcione. “Até quando valorizarmos a justiça, se você pode dar uma atenção especial para alguém que é importante para você... eu não conheço ninguém que não jogaria aquela carta”, diz Michael McKee, vice-presidente do setor de psicologia e psiquiatria da Clínica de Cleveland. Mas pergunte para os médicos sobre as suas experiências e ficará surpreso de quão pouco poder eles têm para dobrarem o sistema e fazê-lo funcionar de acordo com eles pensam ser o melhor.

Isto é uma ironia permanente do progresso. Existe a mais fantástica tecnologia que pode apontar a localização exata de um tumor, introduzir um pequeno cateter até o cérebro para abrir uma artéria obstruída, pulverizar uma pedra do rim sem romper a pele. Mas a coisa simples – como conseguir uma IRM (Imagem de Ressonância Magnética) a tempo, receber as drogas certas no momento certo, ter certeza que todos sabem qual o lado do seu cérebro deve ser operado – pode causar os maiores problemas. “Um paciente com a mais simples das necessidades precisa atravessar um sistema muito complicado através de muitas jogadas, posições e jogadores”, afirma o Dr. Donald Berwick, um pediatra e presidente do Instituto de Aperfeiçoamento de Cuidados da Saúde. “E à medida que a máquina torna-se mais complicada, existem mais peças a serem estragadas”.

Trad. por Jlmmelo from:
http://www.time.com/time/magazine/article/0,9171,1186553,00.html
*(NT.: Em 1983, um hospital de ensino de Minneapolis e o governo municipal criaram um sistema não tradicional de atendimento, para reforçar o ponto principal do hospital e um sistema de acesso aos recursos da rede de saúde, para resolver problema de atendimento aos indigentes. Foi criada uma Organização de Manutenção da Saúde – OMS, para servir à grande população do município que tinha o Medicaid, tipo de seguro de saúde americano ou INSS brasileiro ). E esta OMS depois foi adotada em todo o país.

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